Três Anúncios Para um Crime – A Toxicidade da Violência

fevereiro 28, 2018 Filmes17
Três Anúncios Para Um Crime (2017) é escrito, produzido e dirigido por Martin McDonagh, diretor dos elogiados Na Mira do Chefe (2008) e Sete Psicopatas e um Shih Tzu (2012). O filme foi premiado no Festival de Toronto, no British Film Awards e no Globo de Ouro, além de receber sete indicações ao Oscar 2018, incluindo Melhor Filme, Melhor Roteiro Original e Melhor Ator Coadjuvante – com duas indicações nesta categoria, para Woody Harrelson Sam Rockwell.

O filme acompanha Mildred Hayes (Frances McDormand), uma mãe que, inconformada com a ineficácia da polícia em encontrar o culpado pelo brutal assassinato de sua filha, decide chamar atenção para o caso não solucionado alugando três outdoors em uma estrada, rapidamente repercutindo em toda a cidade e trazendo inesperadas e violentas consequências.

O grande diferencial do filme está nas suas inspiradas escolhas narrativas, que se afastam dos lugares-comuns de filmes sobre crimes com personagens incansáveis que buscam a justiça. No roteiro de McDonagh, a tragédia não leva inevitavelmente à redenção, à catarse e à soluções definitivas. Aqui, a tragédia é aliada, de maneira improvável, mas certeira, a um humor cáustico e desbocado, oriundo das mazelas e interioridades de uma miríade de personagens interessantíssimos e nietzschianos; humanos, demasiado humanos.

A raiva pode não ser a saída mais edificante, mas frequentemente é a mais verossímil e interessante dramaticamente, algo brilhantemente explorado através da obsessão, dor e culpa da riquíssima personagem interpretada por Frances McDormand, em um de seus melhores papéis desde Fargo (1996). Igualmente impactantes são os personagens coadjuvantes, como o delegado Willoughby (Woody Harrelson), um relutante aliado de Mildred que lida com sua própria mortalidade ao mesmo tempo que tenta enxergar o melhor no seu parceiro, o policial racista Jason Dixon (Sam Rockwell), um antagonista “cômico” com um improvável – e polêmico – arco dramático.

As complexas relações entre o trio de personagens é o fio condutor do filme, desenvolvidas através de diálogos rápidos imbuídos de uma acidez niilista, muitas vezes colocada de forma cômica como contraste a situações extremamente violentas – é o tipo de combinação que incomoda o público no melhor sentido possível e prova o quão segura é a visão do diretor para a sua narrativa.

 

Narrativa esta, aliás, que tem como significado sintomático uma não tão sutil crítica a diversas questões culturais americanas – a cidade de Ebbing é fictícia, mas seus problemas não, o que torna o discurso sobre a toxicidade da violência algo atual e envolvente, criando até mesmo uma empatia e identificação do público com estes personagens, em maior ou menor grau, indefensáveis.
Em meio a todos esses elementos, o apuro estético do filme é onipresente, desde detalhes como o livro lido por um dos personagens, “Um Bom Homem é Difícil de Encontrar”, como os belíssimos planos feitos pelo versátil diretor de fotografia Ben Davis, que ilustram o frágil balanço entre a anarquia e a melancolia da cidade.
No fim das contas, a resolução do mistério do assassinato em si é o que menos importa para o filme, mas há em torno disso conteúdo de sobra, de modo que essa escolha só tem a acrescentar à intenção de McDonagh, que prefere deixar a quase-literal estrada para a redenção ou destruição de seus protagonistas como um caminho em aberto, em sintonia com suas moralidades cinzentas.
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